A Nada entra na rede depois de já ter passado seis anos no papel. Não se trata de uma migração porque não é para um lugar que nos dirigimos. Permanecemos no papel porque ele nos lembra uma persistência áspera das palavras que nos encanta ainda. Mas aquilo que se sustenta de nada não pode ser definido pelo seu suporte. Nem pelo suposto lugar que esse suporte ocupa. Muito menos pela origem ou pela referenciação temática. As palavras que nos ocupam andam perdidas connosco. Deslocar as palavras nada nos diz. Desde sempre, as palavras encontram-se já deslocadas, razão pela qual o ciberespaço poderia ter sido a explicitação dessa condição se não estivesse transformado na farmácia sem horário e sem prescrição do nosso tempo.

Nada é uma publicação intrigante, já que lhe falta, precisamente, essa preocupação com a fragilidade da origem que é própria da nossa condição contemporânea. Migrar para a rede tem provocado interessantes dilemas àqueles que se propõem fazê-lo: aos académicos, mostra que a perenidade das suas palavras deixou de ser reconhecida; aos publicistas, prova que nada traz menos saciedade que uma palavra que se considera adequada; aos futurólogos, demonstra que toda a palavra destinada ao futuro é, afinal, uma palavra sem tempo. Aqui, deixamos vir as infinitas modulações que entretecem o poder e o saber, tornados irreconhecíveis e, de algum modo, irrecuperáveis.

A existência pública da Nada tem, assim, uma espécie de furo (entrada do furor, diríamos) no lugar onde outras publicações escrevem o seu programa, o seu desejo de se prenderem às vidas dos leitores, o seu dispositivo de argumentações. Por esse furo escoa-se o resíduo daquilo que foi, um dia, designado como «vida intelectual». Da vida, ficou-nos uma matéria que desistiu de tentar fixar um ponto de fundação e de identificação. Nada, nas narrativas com que tendemos a identificar-nos, nos assegura uma disposição estratégica. Toda a estratégia deixou de ser operatória a partir da disposição do sujeito já que todo o sujeito se encontra absorvido numa disposição económica que o desdobra, o acelera, o lê e o consome.

Na Nada, ambicionamos o não-lugar, não como exercício etnológico, mas como condição do que está hoje vivo naquilo que nos habituámos a ver como humano. Estamos vivos precisamente porque nos habita a íntima convicção de que há uma perda irrecuperável em curso que nos retira à fixação do humano. Digamos que o ser humano deixou de ser habitável, razão pela qual tal convicção retoma algo da ordem do sacrificial: sermos ainda humanos tornou-nos abertos a uma economia que já não é a nossa nem a «deles», mas que instala uma espécie de sistema gnóstico onde só o furor do desejo é ainda acessível nas trocas indescritíveis que por aqui ocorrem.


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Doutorado em Ciências da Comunicação pela U. Nova de Lisboa. Actualmente, é professor na ULHT e investigador no CECL-UNL. Publicou A Impossível Experiência Final da Modernidade, FCG. Tem colaboração dispersa por jornais e revistas — membro permanente da equipa NADA.


 

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